Fim da escala 6×1 pressiona custo do varejo e pode elevar preços em até 4%
Redução do limite da jornada semanal de trabalho eleva custos no varejo, com efeitos distintos sobre preços, margens e consolidação nos setores de alimentos e farmácias
O presidente Lula encaminhou ao Congresso Nacional, com urgência constitucional, um projeto de lei que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução salarial.
Também há outras propostas em análise no Congresso, como a jornada 4×3 e a semana de 36 horas, formatos mais agressivos e com menor probabilidade de aprovação no cenário atual.
No cenário considerado mais provável, com jornada de 40 horas semanais e manutenção dos salários mensais, o impacto para os varejistas tende a ser administrável. Segundo a análise dos especialistas do Banco Safra, o aumento médio de preços necessário para compensar a maior despesa com vendas ficaria entre 1,5% e 4%.
Esse patamar sugere que parte relevante das empresas conseguirá repassar custos ao consumidor. No entanto, a capacidade de execução deve variar conforme o setor.
No varejo farmacêutico, o ambiente parece mais favorável para esse ajuste. O setor apresenta maior espaço para repasse e pode até acelerar o movimento de consolidação em um mercado ainda fragmentado.
Varejo alimentar pode sofrer mais com pressão nas margens
No varejo alimentar, por sua vez, a equação parece mais desafiadora. O setor opera em um ambiente macroeconômico mais pressionado e convive com competição intensa, o que reduz a flexibilidade para elevar preços.
Por isso, o Safra avalia que supermercadistas e demais companhias do segmento podem enfrentar maior compressão de margens, caso não consigam combinar reajustes com medidas adicionais de eficiência operacional.
Estimativas indicam alta de até 11% no custo da folha
A análise parte de duas premissas centrais. A primeira considera que cerca de 90% das despesas com pessoal estão concentradas nas despesas com vendas. A segunda projeta que o impacto das mudanças sobre essa linha de custo pode variar entre 4% e 11%. O efeito sobre equipes administrativas, por outro lado, tende a ser pouco relevante.
Em um cenário de redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas sem corte salarial, o aumento estimado nos custos de folha varia entre 4,7% e 11%. A diferença decorre das metodologias e dos recortes setoriais adotados nos estudos.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima alta de 7,84%, a partir de microdados da Relação Anual de Informações Sociais, a RAIS. Esse número fica entre a projeção de 4,7% do Ministério do Trabalho e a estimativa de 11% da Confederação Nacional da Indústria, que considera ganhos menores de produtividade no curto prazo.
Empresas podem reagir ajustes operacional
Para absorver o aumento das despesas com vendas, as empresas devem recorrer a diferentes estratégias. A mais direta envolve o reajuste de preços. Além disso, varejistas podem ampliar contratações em faixas salariais mais baixas, substituir parte da força de trabalho sob novas condições e rever estruturas de escala.
Outras alternativas incluem reduzir o horário de funcionamento, diminuir o número de funcionários por turno e cortar benefícios. Na prática, a combinação entre essas medidas deve determinar o tamanho do impacto final sobre rentabilidade e competitividade.
O que muda para investidores
Para o investidor, a discussão sobre jornada de trabalho adiciona uma nova variável à análise dos setores de varejo farmacêutico e alimentar. Embora o impacto agregado pareça limitado no cenário-base, a diferença de poder de repasse entre os segmentos pode ampliar a distância entre empresas mais resilientes e companhias mais expostas à compressão de margem.
Assim, o tema merece acompanhamento de perto. Se a proposta mais provável avançar, o varejo farmacêutico pode sair relativamente melhor posicionado, enquanto o varejo alimentar tende a exigir execução mais rigorosa para preservar resultados, segundo os especialistas do Banco Safra.
fonte: o especialista
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